Na Bíblia, o primeiro livro de Samuel apresenta-nos o ministério do homem que dá o título ao livro. Ele é a figura mais destacada do Antigo Testamento, após Moisés. Ele é o último dos juízes em Israel. “E julgou Samuel todos os dias de sua vida a Israel” (I Samuel 7.15). É o último dos juízes em Israel. É o primeiro dos profetas para o seu povo. “Crescia Samuel, e o Senhor era com ele, e nenhuma de todas as suas palavras deixou cair em terra. Todo o Israel, Desde Dã até Berseba, conheceu que Samuel estava confirmado como profeta do Senhor” (I Samuel 3.19,20). Foi quem ungiu o primeiro rei de Israel. “Tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e o beijou e disse: Não te ungiu, porventura, o Senhor por príncipe sobre a sua herança, o povo de Israel?” (I Samuel 10.1).

Samuel viveu vida reta diante do Senhor e do seu povo, fato que lhe deu autoridade ao dialogar publicamente com todo Israel. No final da sua vida ele falou ao povo:

“Agora, pois, eis que tendes o rei à vossa frente. Já envelheci e estou cheio de cãs, e meus filhos estão convosco; o meu procedimento esteve diante de vós desde a minha mocidade até o dia de hoje. Eis-me aqui, testemunhai contra mim perante o Senhor e perante o seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei o jumento? A quem defraudei? A quem oprimi? E das mãos de quem aceitei suborno para encobrir com ele os meus olhos? E vo-lo restituirei. Então, responderam: Em nada nos defraudaste, nem nos oprimiste, nem tomaste cousa alguma das mãos de ninguém. Então, responderam: Em nada nos defraudaste. Mem nos oprimiste, nem tomaste coisa alguma das mãos de ninguém (I Samuel 12.2-4).

Quando Samuel nasceu, cerca de mil e cem anos antes de Cristo, a nação de Israel encontrava-se em plena decadência moral e espiritual, ao ponto de ser feita, pelo autor do livro de Juízes, a declaração de que: “Naqueles dias, não havia rei em Israel: cada um fazia o que achava mais reto” (Juízes 21.25). Nem mesmo a classe sacerdotal escapava da decadência, pois os filhos de Eli, que eram sacerdotes junto com o pai, oficiantes no santuário, e que desempenhavam também as funções de juízes, eram homens desonestos, e imorais “e não se importavam com o Senhor” (I Samuel 2.12.22), dando mau exemplo para o povo. Não havia forte influência profética como nos dias de Moisés e Josué. “Naqueles dias a palavra do senhor era mui rara; as visões não eram frequentes” (I Samuel 3.1).

Se perguntarmos “como encontrar um homem que possa salvar esta nação?”, teremos uma só resposta. É o Espírito Santo que nos responde ao colocar no texto bíblico a história de Ana, a mãe que está continuamente diante te Deus orando, pedindo-lhe por um filho. Ana é um exemplo do que pode uma pessoa alcançar com a oração da fé. Na verdade ela pede um filho para si, mas Deus respondeu dando um filho para ela e um restaurador para Israel. Este fato comprova o que o apóstolo escreveu: “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará com ele todas as cousas” (Romanos 8.32). Deus é extremamente generoso, e dele Jesus disse: “Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as cousas? (Romanos 8.32). Deus é extremamente generoso, e dele Jesus disse: “Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quando mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas cousas ao que lhe pedirem?” (Mateus 7.11). Se Ana não cresce no poder de Deus para responder sua oração, certamente Israel não teria o líder de que necessitava, para aquele momento histórico. Aqui, podemos formular um princípio: Uma mãe que ora por um filho só pode gerar um homem de oração . Samuel foi esse homem.

Ana mostra que pela oração é possível ter a solução para problemas ou necessidades que, aos nossos olhos, por nós mesmos, seria impossível alcançar. Quanto benefício podemos realizar quando nos aproximamos do Pai Celeste em intercessão! E quanto amor fluirá de nós, espalhando-se ao nosso derredor, se estivermos em maior comunhão com o Senhor de nossas vidas! “Se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar e me buscar… então eu ouvirei dos céus… Estarão abertos os meus olhos e atentos os meus ouvidos, à oração que se fizer neste lugar” (II Crônicas 7.14-15). Oração, amor e boas obras devem caminhar juntos ao longo de nossa vida em Cristo.

Ana, nome que significa “graça”, era esposa de Elcana, que pertencia à tribo sacerdotal de Levi, e que, dentro dessa tribo, era membro do clã dos coatitas (descendentes de Coate, homem quem Deus dera, nos dias da peregrinação no deserto, o especial encargo de, juntamente com sua família, de, transportar a arca, móveis e utensílios do santuário do Tabernáculo nas ocasiões em que o povo se transferisse de um acampamento para outro (Números 3.29-31). Pelo motivo de Ana ser estéril, Elcana tomou uma segunda esposa, chamada Penina (“pérola”) – Notemos que Gênesis 2.24 mostra que Deus, ao criar o homem, criou uma só mulher para formar com o homem a unidade do matrimônio. Mas, a lei Deuteronômica, vinda mais tarde pela mão dos sacerdotes, visando solucionar problemas presentes entre o povo, permitiu um segundo casamento, caso a primeira esposa fosse estéril. Lembremos que a procriação era vista em Israel como uma bênção especial de Deus para a mulher; a falta de filhos era como uma maldição (Deuteronômio 21.15-17). Certamente foi esse o motivo que levou os sacerdotes a formularem esta possibilidade. Mas, nós, hoje, devemos lembrar a palavra de Jesus: “entretanto não foi assim desde o princípio” (Mateus 19.8).

Ana era frequentemente perturbada pela zombaria vinda da sua rival, que era fecunda. Assim, ela sofria esta situação de esterilidade. Embora tivesse o consolo do seu esposo, de quem sempre ouvia a expressão: “Não te sou melhor do que dez filhos?” (I Samuel 1.8). Ana sofria por não poder dar ao seu esposo um filho, pois na falta de um descendente o nome da família se perderia. Como toda a israelita piedosa, ela também sabia que, sendo estéril, perderia a oportunidade de ser a escolhida por Deus para ser a mãe do esperado Messias. Mas Ana tinha seus olhos voltados para o Alto. Ela sabia que se pedisse ao Senhor isto lhe seria dado, se buscasse encontraria, se batesse lhe seria aberto. E amava o Senhor, que poderia fazer isso em seu favor. Confiava nele como o único que poderia socorrê-la e consolá-la.

Como uma família israelita, fiel às suas tradições religiosas, eles peregrinavam a Silo por ocasião das festas anuais. Nestas ocasiões, em especial, sua rixosa e provocadora rival desdenhava ainda mais de Ana. Em lugar de desesperar- se, Ana apressou-se em buscar socorro na presença do Senhor. Foi ao tabernáculo e “com amargura de alma, orou ao Senhor, e chorou abundantemente” (I Samuel 1.10). Que imensa riqueza há em sabermos que, mesmo as circunstâncias externas desfavoráveis. a perseverança nos levará a alcançar o que buscamos!

Momentos com este em que Ana se encontrava são propícios para o Espírito de Deus agir em nós. Como ele quer nos levar à maturidade espiritual! Ele usará estes momentos para trabalhar em nós. É a hora para limpar do nosso coração as amarguras e pesares; de colocar o ego fora do centro do nosso ser e em seu lugar entronizar o único que sempre deveria aí estar. É o momento de sermos levados pelo Espírito a lançar fora muitas coisas que precisam deixar de ocupar lugar em nossa mente; hora de fazer aflorar tudo que estava oculto, lá no íntimo, ferindo, agitando e machucando a alma, e então desfazermo-nos disso para sempre. É a hora em que Deus trata com o nosso orgulho, leva-nos abrir mão de lutarmos por nossos direitos, fazendo com que nos rendamos inteiramente a ele. Assim estaremos prontos para, também, desfazermo-nos dos ressentimentos e deixarmos aflorar a disposição de perdoar os que nos magoaram e deixar-nos inundar com o amor daquele que é Amor.

Ana e tantos outros passaram por essa situação de “em agonia de alma” e souberam usar o recurso sempre presente da oração, encontrando guarida nos braços do bom Pai. Ana, agora, não amarra ainda mais as cargas em seus ombros; orando, as lança sobre aquele que pode tomá-las e levá-las para longe dali! Alguém disse que Ana suspirava por um filho assim como o poeta suspira por seus versos! Mas nesse suspiro ela é humilde, isto é demonstrado pela repetição que ela faz da palavra “serva”. Ela sabe colocar-se inteiramente submissa e dependente do Senhor.

Também Ana conhece a força do perseverar na oração. Aí está ela, prostrada, clamando ao Senhor, reconhecendo que só poderá colher o fruto que almeja através de uma vida inteiramente rendida. Em sua humildade, sabe que ela não é nada, mas que aquele a quem ora pode fazer muito mais do que aquilo que ela pede. Sabe que a oração autêntica é aquela que parte de um coração que fala diretamente ao coração do Pai.

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Escrito por: Erasmo Ungaretti – Janeiro de 1976

Pastor na comunidade de discípulos em Porto Alegre.

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