Parte I

“Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz, ele mesmo  resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da glória  de Deus, na face de Cristo”. (II Coríntios 4.6).

Há um imutável resplendor na face de Jesus! É a glória de Deus que brilha  intensamente para que a conheçamos. Deus restaurou em seu Filho a glória da qual ele “se  esvaziou” ao vir ao mundo – “antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo,  tornando-se em semelhança de homens” (Filipenses 2.7). No coração de Deus permanece o  contínuo desejo de que a sua igreja conheça a evidente presença de sua glória na face de seu  Filho.  

Mas há empecilhos que impedem o alcance de tão reveladora visão. Jesus indicou  onde eles têm origem: “Porque amaram mais a glória dos homens do que a glória de Deus”  (João 12.43). O texto, assim, indica a existência de duas glórias: a primeira é a dos homens,  consequentemente transitória; a segunda é eterna, pertence a Deus. É fácil amar a glória dos homens, pois, embora superficial e obscura, é atrativa e facilmente presente no mundo.  Dessa forma ela tolhe, para muitos, a percepção da riqueza que há nessa mais alta realidade  espiritual que vai além do mundo material. 

A providência de Deus, entretanto, concede olhos espirituais aos que crêem. Ao terem  seus corações iluminados pela resplandecente luz que veio ao mundo, os que crêem podem  contemplar a glória do Pai na pessoa de seu Filho – “A luz resplandece nas trevas, e as  trevas não prevaleceram contra ela… a verdadeira luz, que, vinda ao mundo, ilumina a todo  o homem” (João 1.5,9). Jesus é a luz que todos precisam receber para conhecer a glória de  Deus. É no rosto de Jesus que essa glória será conhecida. A tentativa humana de conhecê-la  fora de Cristo é efêmera, é tatear no escuro, não haverá luz para ela. Quando a Luz do Alto  vem ao coração daquele que teve a graça de nascer de novo, sua visão claramente perceberá  a realidade dessa glória. Essa lhe será uma experiência relevante!  

As limitações humanas que temos nos impõem restrições ao conhecimento da  totalidade da glória de Deus. Paulo atestou que “agora, vemos como que por espelho,  obscuramente; então, veremos face a face. Agora, conheço em parte; então, conhecerei  como também sou conhecido” (I Coríntios 13.12). Mas a bondade do Pai nos permite que,  mesmo com grandes limitações, possamos “conhecer em parte” a glória de Deus em Jesus.  Um dia, a “veremos face a face”. 

Ele “falou pelo Filho… Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata de seu  Ser” (Hebreus 1.2,3). O falar de Deus aos homens não veio por via intelectual ou subjetiva.  Deus se expressou de forma visível, tangível mesmo – através de uma Pessoa. O apóstolo  testemunha, dizendo: “o que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto  com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida… o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros” (I  João 1.1,3). A vinda de Jesus é um fato histórico incontestável. Veio apresentar-nos o Pai em  toda a sua glória. Trouxe ao mundo o que lhe era imperceptível. O Filho testemunhou de si  mesmo: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário,  terá a luz da vida” (João 8.12) e, “Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo” (João  9.5). Ele é a única e verdadeira luz que, vinda à escuridão do mundo, fez conhecer – usando a  expressão paulina – o “eterno peso de glória, acima de toda comparação” (II Coríntios  4.17). 

Dessa forma, quando o texto básico dessa reflexão nos diz: “Das trevas resplandecerá  a luz, ele mesmo resplandeceu em nosso coração, para iluminação do conhecimento da  glória de Deus”, é a uma pessoa que ele se refere. Aquele que busca a plena iluminação  espiritual a alcançará nele. O que lhe abre o coração torna-se “filho da luz”,  consequentemente, foi tocado pela glória de seu rosto. 

A frase inicial desse texto – “Das trevas resplandecerá a luz” – claramente nos  lembra a narrativa da criação da luz: “No princípio… Disse Deus: Haja luz” (Gênesis 1.1,3).  Assim, das trevas ela resplandeceu. Quão simples! Tudo o que vem de Deus é assim. Agora,  o Criador da luz repete a mesma ordem e faz com que a total viabilidade das trevas cesse,  facultando ao coração humano conhecer a grandeza da sua glória que refulge na face de seu  Filho.  

Momentos após a entrada triunfal na cidade de Jerusalém, Jesus proferiu uma  veemente afirmação: “E quem me vê a mim vê aquele que me enviou” (João 12.45). Quando  o discípulo pediu-lhe: “Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta”, com empenho Jesus lhe  respondeu: “Filipe, há tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me vê a  mim vê o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai?” (João 14.8,9). Havia sombras na  compreensão de Felipe, mas, depois desse momento, seu conhecimento se iluminou; passou  a ver o Pai na pessoa daquele que já recebera como Mestre. 

Ao olharmos para os pés de Jesus, veremos neles as marcas de longas caminhadas  evangelizadoras através das ondulantes estradas da Judéia. Pés marcados pelas pedras e  espinhos dos abrolhos, mas que são formosos sobre os montes, pois são “os pés do que  anuncia as boas novas, que faz ouvir a paz, que anuncia cousas boas, que faz ouvir a  salvação, que diz a Sião: o teu Deus reina” (Isaías 52.7).  

Se olharmos para as mãos que tocam cegos, coxos e leprosos, veremos nelas o poder  que opera a cura de olhos que não veem, de membros que são inválidos e retira toda a nódoa  da lepra. Mãos que acariciam crianças e se colocam abençoadoras sobre a cabeça de muitos.  Mãos que lavam os pés dos discípulos, dizendo-lhes que os que servem serão bem aventurados.   Fitando os lábios de Jesus, veremos destilar a palavra amorosa que aconselha, corrige,  vivifica e salva. Deles ouviremos ensinos como aqueles que suscitaram dos ouvintes palavras como estas: “Jamais alguém falou como este homem” (João 7.46). Lábios que  apregoam verdades absolutas.

Observando os ouvidos de Jesus, perceberemos que estão atentos ao clamor dos  necessitados; prontos a escutar um pedido, uma carência, um solicitar de amor. Mas, acima  de tudo, são ouvidos atentos à voz do Pai, pois sabe muito bem que a sua boa, agradável e  perfeita vontade precisa ser integralmente cumprida em todas as situações de seu viver.  

Mas, ao levantarmos os nossos olhos com um coração cheio do intenso brilho vindo  do Alto, veremos, de imediato, o único e resplandecente rosto no qual pode ser apresentado,  agora, em toda a sua pujança, o conhecimento da plenitude da glória de Deus.  

Jesus, orando junto aos discípulos, pouco antes do momento em que se realizaria a  mais trágica agonia, jamais igualada no mundo, declarou ao Pai: “Eu te glorifiquei na terra,  consumando a obra que me confiaste para fazer” (João 17.4). O obediente coração de Jesus  com antecipação apresentava ao Pai o ponto culminante de sua missão – glorificá-lo.  Obediente, sentia-se já totalmente oferecido a ele em holocausto, em nosso favor. Sabia que  não deixaria de assumir a cruz. Teria tentações para desistir, mas às suplantaria. Com plena  convicção, afirmou ao Pai já tê-lo glorificado aqui na terra. Essa é a razão pela qual Deus  pode mostrar, hoje, a sua glória na face de seu Filho. A obediência do Filho deu-lhe essa  oportunidade. Quando o Filho completou a glorificação do Pai, cumprindo a sua missão  terrena, o Pai lhe glorificou com a eterna glória nos céus.  

Baseando-se na revelação recebida do Alto, o apóstolo pode afirmar sobre Jesus: “Ele  é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação… aprouve a Deus que, nele,  residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele,  reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus” (Colossenses 1.15, 19, 20). Essa, também, é a sublime razão pela qual podemos ter a  “iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus”. Amém.  

Quando João escreveu sobre Jesus: “veio para o que era seu, e os seus não o  receberam” (João 1.11), ele afirma a existência daqueles que, vivendo nas sombras, nada da  luz podem refletir em seus corações. A esses Jesus se dirige: “Portanto, caso a luz que em ti  há sejam trevas, que grandes trevas serão” (Mateus 6.23). Todavia, o evangelista mostra a  outra face desse fato, afirmando: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de  serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (João 1.12). Esses são os  que podem ver a glória de Deus na face de Cristo. 

Aos corações obscurecidos pelas trevas Jesus diz: “Eu vim em nome de meu Pai, e  não me recebeis: se outro vier em seu próprio nome, certamente, o recebereis. Como podeis  crer, vós os que aceitais glória uns dos outros e, contudo, não procurais a glória que vem do  Deus único?” (João 5.43,44). Sem a resplandecente luz no coração humano, a marcante  experiência do conhecimento da glória de Deus fica tolhida. Paulo, escrevendo sobre os que  detêm a verdade pela injustiça, afirma: “porquanto o que de Deus se pode conhecer é  manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus,  assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se  reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram  criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis” (Romanos 1.19-20).

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Escrito por: Erasmo Ungaretti – Janeiro de 1976

Pastor na comunidade de discípulos em Porto Alegre.

O texto acima expressa a visão do autor sobre o assunto, não sendo necessariamente a visão do site.