Algumas das perguntas que muitos cristãos escutam quando começam a enfrentar um período de tristeza são: “Você está em pecado?”, “Qual a brecha que você abriu em sua vida?”, “Como está a sua fé?”, “Por que você não se alegra no Senhor?”.

Além desses questionamentos, ainda é preciso encarar uma boa dose de julgamento e crítica por parte daqueles que acreditam que verdadeiros discípulos não sofrem de depressão.

A falta de entendimento sobre o que é depressão, suas causas e seu impacto sob o ser humano é o que tem levado centenas de crentes a levarem mais culpa e sofrimento ao coração já desgastado daqueles que acabam padecendo desse mal.  

Podemos encontrar pessoas que sofreram de depressão na Bíblia?

A depressão é caracterizada pelo sentimento constante e prolongado de tristeza e desânimo profundo. Esse sentimento também pode se desdobrar em uma série de outros sintomas como ansiedade generalizada, pensamentos obsessivos e desejo suicida.

Em uma leitura completa da Bíblia, é possível encontrar alguns casos que se encaixam perfeitamente no que chamamos hoje de “depressão”:

Amaldiçoa o dia de seu nascimento:

Depois disto, abriu Jó a boca e amaldiçoou o seu dia. E Jó, falando, disse: pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: foi concebido um homem! Por que não morri eu desde a madre e, em saindo do ventre, não expirei?” (Jó 3: 1, 11)

Mas Jó era um cristão verdadeiro? 

“Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e era este homem íntegro, reto e temente a Deus e desviava-se do mal.” (Jó 1:1)

DAVI

Em muitos salmos, abre seu coração a Deus:

“Ó Deus meu, dentro de mim a minha alma está abatida” (Slm 42:6)

“Até quando te esquecerás de mim, SENHOR? Para sempre? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando consultarei com a minha alma, tendo tristeza no meu coração a cada dia?” (Slm 13:1,2)

“As minhas lágrimas servem-me de mantimento de dia e de noite” (Slm 42: 3)

“Inclina, SENHOR, os teus ouvidos, e ouve-me, porque estou necessitado e aflito.” (Slm 86:1)

Mas Davi era um cristão verdadeiro? 

(Deus) deu-lhes Davi como rei, sobre quem testemunhou: ‘Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, ele fará tudo conforme a minha vontade’ (Atos 13:22)

ELIAS

Ameaçado por Jezabel e sem esperança, tem pensamentos suicidas:

  – “Elias se assentou debaixo de um zimbro; e pediu para si a morte e disse. Basta” – “Não aguento mais!”. (1Rs 19.4)

Mas Elias era um cristão verdadeiro? 

“Tinha chegado a altura do Senhor levar Elias para o céu num remoinho. Enquanto iam caminhando e conversando, de repente um carro de fogo apareceu e passou pelo meio deles, separando-os. Elias foi, assim, levado para os céus num remoinho.” (II reis 2: 1,11)

NOEMI

Depois de perder seu marido Noemi (que significa deleite, agradabilidade) troca seu nome para Mara (amargura):

“Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara; porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso.” (Rute 1:20)

Mas Noemi era uma cristã verdadeira? 

“Então as mulheres disseram a Noemi: Bendito seja o Senhor, que não deixou hoje de te dar remidor, e seja o seu nome afamado em Israel. Ele te será por restaurador da alma, e nutrirá a tua velhice.” (Rute 4:14)

JEREMIAS

Conhecido com o “profeta chorão”, lamenta.

“Por que saí da madre, para ver trabalho e tristeza, e para que os meus dias se consumam na vergonha? (Jeremias 20:18)

Mas Jeremias era um cristão verdadeiro? 

“Antes que te formasse no ventre te conheci; e antes que saísses da madre, te santifiquei; às nações te dei por profeta.” (Jeremias 1:5)

Se você leu os exemplos acima, facilmente poderá concluir:

Sim, é possível que um cristão sincero e temente a Deus atravesse um período de depressão sem, necessariamente, ter feito algo específico para merecer isso. A Bíblia não cita nenhuma brecha ou pecado oculto que os personagens citados acima possam ter cometido para justificar o período de grande tristeza pelo qual passaram.

Isso não quer dizer que um pecado nunca possa causar uma depressão, mas – na maioria das vezes – a causa é apenas uma consequência natural do mundo caído. Assim como todos nós estamos sujeitos a assaltos, doenças e tragédias, um cristão poderá estar sujeito a desenvolver depressão em algum momento da vida.

Qual é a causa?

Muitos estudos têm mostrado que a depressão tem causas biológicas. Ou seja, por alguma razão (cansaço, situações difíceis, luto ou stress) o cérebro do indivíduo começa a não conseguir regular o organismo de forma correta. Esse desequilíbrio provoca a sensação de tristeza e desânimo extremo que, por sua vez, gera o problema com o funcionamento do corpo. O ciclo continua indefinidamente. E, se não quebrado, poderá levar ao suicídio.

Como ajudar?

Muitos cristãos acham que exortar a pessoa deprimida é uma excelente ajuda:

“Alegrai-vos no Senhor! Se anime! Saia dessa cama” – eles dizem.

Isso produz um efeito exatamente oposto. O deprimido sente-se mais triste ainda, porque agora, além da tristeza, tem de lidar com a cobrança e a culpa de “não conseguir” se alegrar.

Se você quer realmente ajudar, lembre-se do que Paulo aconselhou:

“Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram.” (Rm 12:15)

Seja uma companhia amorosa, não cobre, não fale sem parar. Apenas escuta e diga: eu estou aqui com você.

A depressão é uma estrada muito solitária e pessoal. A resposta e a cura não virão de fora para dentro, por alguma imposição ou por força bruta. Será, antes, algo semeado por Deus, no interior daquele que está sofrendo.

Um cristão pode tomar remédio para depressão?

Assim como o cristão toma remédios para dor de cabeça, gastrite ou pressão alta sem se sentir culpado, ele deveria tomar remédios para depressão, se assim desejar. A depressão é uma doença que afeta o cérebro, como a gastrite afeta o estômago e a pressão alta o coração.

Se você encontrar alguém que está sentindo pontadas no coração, o que você diria? “Olha, se eu fosse você iria ler mais a Bíblia e orar”? Ou “Procure um médico com urgência?”.

Um cristão que está em processo depressivo não deve ter vergonha de procurar ajuda de médicos psiquiátricos, assim como não deve ter vergonha de procurar um cardiologista quando sentir pontadas no coração. 

A vergonha, a falta de informação e os “tabus” que circulam dentro da igreja têm levado muitas pessoas às últimas consequências da doença, que geralmente culminam no pensamento suicida.

Quando a depressão acaba em suicídio

O filho de Rick Warren (autor do livro Uma Vida com Propósitos), o filho de Daniel Mastral e o pastor Jarrid Wilson, proeminente líder de uma igreja na Califórnia, assim como muitos pastores e cristãos conhecidos, tiraram suas vidas recentemente. As notícias chocam e trazem um questionamento inevitável: eles foram para o inferno?

A maioria dos cristãos, guiados pela sensação de que o suicídio é um pecado imperdoável, responderiam, categoricamente, que sim. Contudo, eles dificilmente conseguirão argumentar biblicamente. Isso porque o suicídio não é citado, claramente, em nenhum texto bíblico.

A concepção de suicídio como pecado vem apenas do desdobramento do mandamento “não matarás”. A vida pertence a Deus e só Ele poderá tomá-la. Logo, o suicida seria também um homicida excluído da entrada no Reino dos céus:    

“Ficarão de fora os cães, os feiticeiros, os adúlteros, os homicidas, os idólatras, e todo o que ama e pratica a mentira.” (Apc 22:15)

Por outro lado, também podemos pensar que o ato de tirar a própria vida é o último pecado que alguém pode cometer. Todos nós cometermos um último pecado antes de morrer, e por esse pecado seremos condenados para sempre?

A verdade é que apenas Deus poderá julgar e decidir o destino de cada ser humano. Apenas Ele conhece as mais profundas intenções e a real situação de cada um, não só no momento de sua morte, mas durante toda a sua vida. Aos familiares e amigos que perderam alguém para o suicídio, resta saber:

“A pessoa que você perdeu está agora nas mãos misericordiosas de Deus. Descanse, você também, nessas mesmas mãos.”